Entrevista
com a atriz Simone Cerqueira

A atriz foi premiada no
Festival de Teatro do Rio 2005, promovido pela Universidade Veiga de Almeida.
Simone recebeu o título de atriz revelação por sua atuação em “Negrinha”,
espetáculo dirigido por Ricardo Andrade. A atriz também é vice – diretora do
Instituto Nossa Senhora Para As Artes.
O que te move a ser uma
representante do fazer teatral?
O gosto pela arte, pela
cultura. Pela diversidade. O sonho a realização, a vontade de estar no palco.
Quando criança vem a vontade de interpretar, fazemos isso na escola, na igreja e
até no próprio lar através das brincadeiras com a família e amigos. Por não
conhecer o teatro de fato a gente pensa na televisão e bem mais tarde esta arte
consegue ser apresentada.
Como é a vida de uma atriz
negra de teatro no Brasil?
Complicada. Porque as pessoas,
os produtores, diretores não se arriscam a colocar atores nos escalões
principais se a peça não falar em escravidão. Só pensam nas loiras ou nos
modelos. O negro não empresta só a cor, mas a emoção e o seu potencial.
Você tem tido a chance de
mostrar o seu trabalho no Espetáculo “Negrinha” e com isso sendo premiada e
conseguido visibilidade no cenário teatral do Rio de Janeiro. O que significou a
conquista do prêmio atriz revelação? Você esperava?
Eu não esperava o premio de
atriz revelação. Disse a minha companhia de que se estávamos lá, teríamos a
possibilidade de ganhar alguma coisa. Os jurados se surpreenderam com a
interpretação de uma negra no palco, eles não esperavam. Rs. Foi muito bom.
Um prêmio em qualquer
instância muda a vida?
Muda!Porque você pode ter dez
anos de carreira e as pessoas não te olham do mesmo jeito que você ganhasse um
prêmio. Se você ganha um premio te tratam de outra maneira e as portas se abrem
mais facilmente. Mas não é o principal, você não faz espetáculo para ganhar
premio, mas se você ganha é maravilhoso!Rs...
Quais as expectativas para o
futuro?Há planos de carreira?
Estudo. Estudar sempre teatro,
artes em geral, musica canto. Pretendo ser completa como atriz. Pretendo fazer
outras peças e participar de festivais. Atualmente fiz um curta metragem chamado
“Equinócio de Outono”. Uma produção independente. Fiz uma prostituta em
Copacabana, é muito cansativo passei a madrugada gravando, mas foi muito bom. É
uma outra linguagem, uma nova experiência. Vamos ver como é que fica o
resultado.
É possível no Brasil sagrar-se
verdadeiramente uma atriz de teatro?
Acho que é possível. É um trabalho de muitos
anos, de muito esforço, de muita entrega, tem que se jogar, tem que fazer
projeto, ir atrás do patrocinador ou colocar dinheiro do seu bolso. Sempre fiz
teatro em escola, o que me dá muita experiência e é um trabalho digno. Estamos
prestando serviço e formando platéias. Aquelas crianças e jovens serão o público
de amanha.
Como você vê a atual situação
do teatro brasileiro?E especificamente no Rio de
Janeiro.
Hoje em dia existem alguns
incentivos fiscais com uma burocracia que dificulta chegar ao final.Existem
licitações de multinacionais.No Rio de Janeiro é complicado por causa da
televisão. Não estou falando mau da televisão.É porque as pessoas acham que vão
encontrar os atores da televisão no teatro. Se não tiver incentivo é mais
complicado.Tem espaços alternativos, mas divulgar é fundamental.Mas como fazer
isso sem dinheiro?
Que segmento tem os
espetáculos da Nossa Senhora do Teatro?
Não temos segmentos
propriamente dito e nem estilos. Fazemos aquilo que vem a nossa cabeça. Gostamos
de trabalhar as coisas do Brasil. Podemos fazer de tudo, não nos prendemos a
estilos ou escolas, isso seria nos limitar. Atualmente estamos lendo o clássico
“Romeu e Julieta” e acho que pretendemos monta-lo e claro vamos deixá-lo
mais folclórico, colorido e alternativo. Assim também será com “Dona Cigarra
e Dona Formiga” a clássica fábula de La Fontaine. Pegamos “Negrinha”
de Monteiro Lobato que tem uma linguagem densa e o transformamos em algo mais
alegre.
Como você vê o teatro
comercial no país?
Uma beleza! Porque é só
aparecer na televisão que você tem tudo! As empresas te buscam e te oferecem o
dinheiro para colocar o nome delas lá.Enchem a casa.Mas assim você coloca
qualquer besteira no teatro e se tem famoso enche.Mas o público não presta
atenção na peça e isso confunde quem faz teatro verdadeiramente.
Quanto a linha de crédito e o
incentivo para espetáculos tem sido mais democrática? Ou ainda existe uma classe
privilegiada?
Acho que neste governo a coisa
tem sido mais democrática. As pessoas reclamam que não conseguem apoio, mas não
fazem projetos e não pesquisam. É preciso montar bons projetos para que possam
concorrer de igual para igual. Sim existe uma classe privilegiada. No caso de
uma atriz excepcional como Fernanda Montenegro que levou anos trabalhando no
teatro e consolidou uma carreira, seria praticamente inegável qualquer tipo de
apoio. Todos querem Fernanda, mas atores que chegam hoje na televisão e já
recebem patrocínio, há de se contestar!Mas se eles ficarem parados depois não
conseguem mais nada!Rs.
O que você teria a dizer sobre
o atual ministro da Cultura Gilberto Gil?
Acho que ele tem trabalhado
para democratizar a cultura no nosso pais, tem trabalhado para grupos menos
privilegiados de dança e teatro como os do Piauí, do Amazonas, do Maranhão, isso
para terem suas culturas valorizadas assim como a do Rio e São Paulo que
antigamente só eles recebiam a verba. Nunca se ventilou tanto a cultura como
nesse governo. Hoje esta mais aberto para todos que fazem um trabalho de cultura
e de base. Hoje temos não só o teatro de elite, mas também o frevo, o maracatu,
o reisado, a capoeira e o teatro de rua valorizados e apoiados com incentivos
financeiros.
Você
poderia traçar um perfil das pessoas que procuram as Oficinas Teatrais da Nossa
Senhora do Teatro?
Pessoas que estão se
descobrindo, que procuram a felicidade e a qualidade no ensino. Gente que quer
fazer teatro, mas também que quer trocar idéia, se conhecer e conhecer o outro,
suas virtudes e seus defeitos. Porque é assim que trabalhamos. Muita gente não
sabe o que é direito e acaba se apaixonando. Muita gente que fez nossas oficinas
está hoje na Cia. Nossa Senhora do Teatro.
Qual a importância da Cia.
Nossa Senhora do Teatro para você? É fácil sobreviver a
constância de uma Companhia de Teatro sem patrocínio?
É meu porto seguro. Estar numa
companhia é muito bom, você divide sonhos, traça objetivos comuns, Quem me
convidou para vir para cá e fazer as oficinas não está, mas valeu a pena!Não é
fácil conviver, tem que amar muito o trabalho, respeitar muito o colega.
Caminhar com os próprios pés e recursos é muito difícil!Vimos em passos firmes
para conseguir uma oportunidade.
Você teria
como sugestão algo que pudesse viabilizar melhor a vida das
Companhias Teatrais no Brasil?
Tenho que
pensar!Rs. A minha sugestão e propor um projeto bem elaborado e ir a luta. Mas
se te fecharem as portas, é você pegar o dinheiro do bolso e produzir. Não se
pode ficar esperando só o dinheiro dos cofres públicos ou particulares. O estudo
da arte e encarar as coisas como elas são é minha dica. Ir a luta e não esperar
a casa cheia! Não é nossa realidade!O trabalho continuativo é sempre a melhor
opção. Conhecer gente e trocar informações. Acredite que você vai chegar lá.